Pedro Melo acredita que a entrada da Delta Air Lines na Região pode abrir novos mercados para o pescado açoriano em Nova Iorque

 

O Secretário-geral da ACPA (Associação de Comerciantes de Pescado dos Açores) considera que a entrada nos céus dos Açores da companhia aérea norte-americana Delta Air Lines pode abrir um novo mercado para o pescado açoriano, nomeadamente tendo como destino Nova Iorque.

Pedro Melo ressalvou, contudo, que primeiro importa preciso perceber em que condições a companhia irá voar para a Região, “que condições nos irá oferecer” e, depois, “fazer uma prospecção de mercado, de forma a encontrar-se novos clientes para o nosso pescado”.
Como “não somos, na pesca, uma economia de escala, naturalmente, temos de funcionar muito na base da nossa qualidade e não tanto da quantidade”.
O responsável da ACPA aponta o transporte aéreo do pescado dos Açores como uma “grande peja”. “Tem configurado sempre uma dificuldade, o pescado é um dos produtos alimentares mais perecíveis e para chegar a mercados, mesmo europeus, mais longínquos, ou a países como o Dubai, os Emirados Árabes Unidos, os Estados Unidos da América, ou outras áreas do globo é fundamental que tenhamos uma logística de transporte eficaz”.
Pedro Melo diz que a Região ainda não tem esta eficácia porque está baseada num transporte aéreo direccionado para o passageiro. “Os horários funcionam em função do que são os passageiros e toda a politica deste tipo de transporte é em função do próprio passageiro”, refere.
Por exemplo, acrescenta, “se houver passageiros com excesso de bagagem, naturalmente que a carga sai prejudicada e não se pode fazer um negócio baseado numa incerteza de espaço disponível no transporte aéreo”.
O mesmo recordou, ainda a propósito da questão dos transportes, que foi realizado um concurso para um cargueiro operar na Região. “Este concurso já vai na sua segunda edição, sabemos que houve um concorrente e o concurso terá ficado concluído em finais de Agosto, estamos já em Outubro pelo que se estranha não haver ainda qualquer notícia sobre o assunto”, lamenta, dizendo esperar que, “efectivamente, o cargueiro avance, porque seria importante para a pesca e para o pescado, uma mais-valia sem dúvida”.

 

Preços pagos em lota e pelo consumidor final estão ajustados

Em relação aos preços pagos em lota e pelo consumidor final, Pedro Melo afirma que as pessoas têm, por norma, ido buscar valores ao site da Lotaçor, “que são preços médios de determinada espécie, não tendo em conta nem o seu calibre, nem a sua qualidade”.
Isto, frisa, é diferenciado no acto de compra em lota, por exemplo, “o chicharro pode ter um preço médio de 3 ou 4 euros e comprar-se um lote de chicharro a 13 ou 14 euros por causa do seu calibre e dimensão”.
Depois, diz ainda o Secretário-geral da ACPA, o comerciante baseia o preço ao consumidor de acordo com o valor que pagou em lota.
Por outro lado, há que ter em conta que, sendo um produto perecível, de um dia para o outro há perdas, estas também são reflectidas no preço de uma próxima venda.
Tudo isto, reitera Pedro Melo, tem depois de ser associado a todos os custos que uma empresa que comercializa pescado tem, “com regras de qualidade extremamente rígidas, constantes desinfecções às instalações, pessoal habilitado, as próprias embalagens, água, electricidade, o frio, etc”.
“Muitas vezes, as pessoas não têm em conta estes factores e julgam que se se comprou a 5 euros, se deve vender a 6. Há que compreender ainda os chamados custos de contexto”, aponta também.
Deste modo, o responsável da Associação de Comerciantes de Pescado dos Açores defende que os preços “estão ajustados e sempre foi assim”.
O que acontece, explica, é que “as comparações por vezes não são as mais correctas”.
“Já se chegou a comparar o preço de pescado comprado num dia, indo duas horas depois ao mercado, quando o peixe comprado ainda naquele dia ainda nem tinha entrado no circuito de comercialização, estando sim a comparar-se com o preço do dia anterior”, exemplifica o mesmo.
Pedro Melo acredita que hoje e até mesmo face às exigências que o consumidor coloca, as empresas têm de fazer o preço mais justo possível, “caso contrário qualquer empresa de comercialização de pescado corre o risco do produto ficar no escaparate e de não conseguir vender. O pior inimigo de uma empresa será ela própria praticar um preço que depois a prejudica”.
Contudo, ressalva que em todo o mundo o pescado é um produto caro. “Estamos a assistir a uma escassez de pescado e naturalmente os preços sobem, é a lei da oferta e da procura”.
Na opinião do mesmo, “não é agradável para ninguém ter preços elevados, mas se formos a outras partes do país e do globo o pescado é sempre um produto caro, não podemos exigir algo barato quando não há condições para que o seja”.
De resto, o mercado regional representa cerca de 24 por cento do pescado descarregado em lota, com o mercado nacional a representar 45 por cento e a exportação para o estrangeiro à volta dos 30 por cento.
Portanto, “o mercado de maior importância é o português, não se pode considerar exportação mas sim um escoamento do pescado”. Depois, em termos de exportação, Espanha, Itália e Grécia apresentam-se como destinos principais, na Europa, para além dos Estados Unidos da América e do Canadá, mas com valores muito mais reduzidos hoje em dia em relação ao que se verifica há alguns anos atrás.
“Sabemos que vivem lá as quinta e sexta gerações dos nossos emigrantes e estes são muito menos ligados às coisas da terra originária dos avós e bisavós”, observa Pedro Melo.
Nestes dois mercados, europeu e norte-americano, existem moedas fortes, custos alfandegários elevados e por isso o pescado açoriano chega muitas vezes ao destino com preços pouco competitivos.
O Secretário-geral da ACPA deixa também o reparo ao facto da frota pesqueira açoriana estar “desadequada” face à realidade actual. “Investiu-se muito em barcos entre os 9 e os 11 metros, que têm pouca autonomia em termos dos nossos mares, acabam todos por pescar nos mesmos sítios, não vão mais longe e há pressão sobre os recursos”, lamenta.
A renovação da frota passa também pela União Europeia que pode ou não permitir uma reconversão.
“Agora, é preciso sensibilizar a Comissão Europeia neste sentido, é necessária uma enorme reestruturação, não se pode continuar a ter 600 embarcações nos Açores, não há peixe para tanta gente e também há que retirar gente da pesca, infelizmente terá de ser”, considera.

Fonte: Correio dos Açores

 
 
 

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