4 – Atum rabilho, esse tesouro que nos tem passado ao lado // por Valdemar Oliveira

 

Poder-se-ia dizer como um cientista meu grande amigo dizia, quando falávamos de atum, uma das suas grandes especialidades, que eles são peixes tão imprevisíveis, que quanto mais os estudamos, menos sabemos deles.

De facto o comportamento dos atuns leva a que os pescadores não encontrando justificações para atitudes bastante esquisitas dos mesmos, recorram, assiduamente, a indivíduos que, quais adivinhos, conselheiros ou curandeiros, lhes arranjam poções mágicas ou soluções para lhes ajudarem a resolver aquilo que não tem explicação plausível para suceder.

Eu que não acredito, minimamente, nestas questões mágicas ou espiritistas que rodeiam barcos e pescadores, mas que respeito quem nelas acredita, penso que muito daquilo que se passa nas pescas, para além do abuso da ingenuidade dos pescadores, tem mais a ver com o saber, a dedicação, o estoicismo, e trabalho, do que com outras coisas absolutamente paralelas às pescas. A complexidade comportamental dos peixes, a sua imprevisibilidade, a falta de explicação para muitas questões inexplicáveis, transportam a lógica e até mesmo o planeamento, para aquilo que se entende pela sorte do mar: essa sorte onde se jogam no seu tabuleiro muitas questões onde se inclui o sobrenatural entregue à arbitrariedade da magia e dos poderes da bruxaria, igual ou muito parecida em todos os cantos do mundo.

Para além disso, das coisas que mais me marcaram na pesca ao atum, foi aquilo que os governantes fizeram ao longo dos tempos, dentro da sua patológica ignorância, e da sua parcialidade e protecionismo, inventando regras e directrizes absurdas, imiscuindo-se na gestão racional de alguns armadores que lutavam contra as arbitrariedades, contra vícios impregnados de má-fé.

Para além disso havia, ainda, a conduta protecionista do Governo a muitos armadores, inventados e feitos por ele, penalizando aqueles que, investindo o seu dinheiro, tudo faziam para flutuar na confusão onde as regras da pesca ao atum assentavam.

Desta forma, os sucessivos governos penalizaram injustamente os armadores, dito, privados, defendendo algumas conserveiras sob a capa de decretos legislativos absurdos, regras sem nexo ou normas que acabavam por subjugar os armadores que tudo arriscaram nesta arte.

Por outro lado, a nascida frota azul, na sombra do seu protectorado, o Governo, vivia dias faustosos e de enriquecimento dos seus donos pois não pagavam amortizações, nem tão pouco os seguros, varagens, grandes reparações, substituições de motores ou aparelhos electrónicos, etc. que se tornaram, por consequência, despesas do Governo e da Região quando os outros armadores pagavam tudo, como era lógico e sua obrigação, numa discriminação selvagem e sem pudor.

No meu caso particular, depois de chegar à conclusão do prejuízo que o atum entregue à indústria representava, quando enveredei pela classificação e exportação dos peixes que tinham alguma qualidade para consumo em cru, apareceu em cena o Governo que tudo fez para, por exemplo, me dificultar a vida. Começou por me proibir sangrar, esviscerar, e classificar, o atum que pescava nas minhas embarcações, sabendo de antemão do prejuízo que o atum para a indústria representava para os armadores que deviam os seus barcos à banca; os governantes sabiam do esforço financeiro que eu tinha feito com a construção de 2 novos moderníssimos atuneiros; tinha conhecimento dos classificadores que recrutei, um biólogo dos Estados Unidos, 2 profissionais, um das Filipinas e outro do Japão, a quem me juntei eu e os meus 2 filhos depois de tirarmos o curso de classificadores em Los Angeles.

Fernando Lopes, secretário da tutela à altura, acabou com o meu sonho de sucesso que tive com as primeiras exportações, de cerca de 17 toneladas de atum patudo, que exportei em cru para Los Angeles, pescado na Madeira.

Mas nos Açores, na minha terra, nesta terra onde decidi viver, onde decidi, de boa-fé, investir e entregar toda a minha energia e saber, decidiram que eu não poderia valorizar o meu peixe 50, 100, ou mil vezes mais, porque a sua mentira baseava-se no facto da indústria local ter falta de peixe para laborar. Esta indústria local que fraudulentamente enganava os importadores europeus, principalmente os italianos, que nos compravam, segundo a discrição na lata, atum de qualidade Açores, proveniente de peixe fresco, pescado de salto e vara, sob a cegueira corrupta da ASAE quando, de facto, a maioria do atum enlatado e exportado era resultante de importações de atum congelado, de origem duvidosa, com pesos mínimos proibidos, e capturas que provavelmente contrariavam as leis internacionais na respeitabilidade do estatuto “Dolphin Save”.

Deixei de poder preparar e classificar o meu peixe a bordo porque me era proibido exportar sem passar com o mesmo pela lota e sujeitá-lo ao leilão. Essa lota onde o meu atum, por Lei, não podia dar entrada, sangrado e esviscerado, quando o espadarte podia. Por outras palavras deram-me cabo do negócio para sashimi, e criaram-me uma autêntica ratoeira financeira ao investimento que fiz na construção de 2 atuneiros modernos, preparados para trabalharem e classificarem atum para exportação em cru para os Estados Unidos da América e Japão.

Tive que mandar as embarcações para São Tomé, Angola e Costa do Marfim, em África, onde havendo atum, não existiam laboratórios que o classificasse como apto para transformação em conserva na Europa Comunitária, tendo que os vender por um prato de lentilhas para poder cumprir minimamente com os meus compromissos bancários.

Poder-se-á questionar por que o fizeram os governos? Por que se defendeu tanto a indústria? Porque se beneficiou, à custa do erário público a frota azul?

Sim, porque numa sequência diabólica de medidas desastrosas, coniventes uns com os outros, na sombra da ineficácia, incompetência e medo, de um Tribunal de Contas que via roubar-se muitos milhões de dinheiros públicos para proveito dos amadores da dita “Frota Azul” que nunca pagaram um centavo ao Governo da sua assumida dívida, enriquecendo despudoradamente, à vista de todos, à custa dos descontos dos cidadãos comuns?

Poder-se-á, por isso, resumir que a razão primária que levou a não valorizarmos o nosso atum para os mercados de sushi, se prendeu com o protecionismo que os sucessivos governos deram às conserveiras, à forma brutal como esses governos protegendo os lóbis dos amigos destruíram e levaram à falência quem apostou na inovação e grande valorização da pesca do atum nos Açores.

Aquilo que sei é que aquilo que me sempre foi proibido, hoje é incompreensivelmente facultado a gente de todo o lado que nem nos Açores vive.

Fonte: Escrito por Valdemar Oliveira / Correio dos Açores

 
 
 

2 Comentários

  1. ANTÃO diz:

    Chama-se a isto , o retrato da falecida.Tal e qual! Gosto!

  2. Jose marques diz:

    Boa noite,
    Caro Valdemar Oliveira,fantastico trabalho,como Pescador desportivo Concordo a 100%,agora profissional.
    Pf nao desista desse seu projeto
    Abraco
    Jm

 
 

Deixe um comentário