Smart Ports // O papel das tecnologias de informação na Era dos Portos de Baixo Carbono

 

«Ao longo das últimas décadas, os principais portos do mundo passaram por diversos estágios de evolução que tiveram o seu início com o processo de informatização até ao conceito de “Porto Digital”.

A proximidade dos atores da cadeia de valor da logística com o fenómeno da Internet das Coisas (IoT) está a levar para o seio dos portos novas formas de recolher, partilhar e gerar valor a partir da informação. Estamos a assistir ao nascer de uma nova geração de portos apoiados por infraestruturas inteligentes, pela interconectividade das coisas e por processos de gestão otimizados pela geração de conhecimento fruto do processamento eletrónico de largos volumes de dados: – Os “Smart Ports”.

A tecnologia IoT e o Big Data tomam o seu lugar na dianteira das tendências tecnológicas que irão fazer nascer uma nova geração de ecossistemas portuários.

A interconectividade entre sensores permite que os diferentes objetos e atores ganhem perceção sobre o que está a acontecer. Tecnologias como a RFID permitem que os objetos possam “falar”, o Machine-to-Machine (M2M) permite que troquem informação entre si e o IoT permite que todos estejam ligados à internet, para que sobre os seus dados sejam desenvolvidos serviços inovadores que contribuam para a eficiente articulação de carga, equipamentos, navios e pessoas.

Nos resultados preliminares da nossa investigação, observamos uma estreita relação no foco do “Porto Inteligente” e as necessidades dos territórios, por exemplo, no norte de Africa, o desaparecimento de contentores impulsionou a aplicação da RFID e a implementação de serviços de localização de carga; nos Estados Unidos – apesar dos portos de Los Angeles e Long Beach estarem a dar passos significativos em prol da sustentabilidade e eficiência energética- o alerta para o terror que ficou do rescaldo do 11 de setembro conduziu a inovações tecnológicas focadas na segurança do transporte de mercadorias e no combate ao terrorismo e ao tráfego de armas de destruição em massa; já na Europa, a pesada regulação, a dependência externa de combustíveis fosseis, e preocupações ambientais aliadas à coesão territorial têm influenciado iniciativas de otimização dos fluxos de carga e dos processos administrativos, eficiência energética e a monitorização do impacto da atividade portuária sobre o quotidiano da envolvente e os ecossistemas naturais.

Os “Portos Inteligentes” estão a emergir do princípio em que “a necessidade aguça o engenho” e, um pouco por toda a Europa, estão a chegar à vida iniciativas experimentais de tecnologias eco eficientes.

Valência e Livorno cooperam na definição de boas práticas de gestão inteligente de recursos energéticos e na experimentação de combustíveis alternativos. Dispõem de uma plataforma eletrónica para monitorização das operações e o consumo de energia das diferentes máquinas que operam no ecossistema portuário ajudando, deste modo, os operadores de terminais dna aplicação de medidas de eficiência energética. Sobre este exercício de experimentação recai a expectativa de se reduzir em 50% do combustível usado pelos guindastes e 30% do consumo energético dos sistemas de iluminação do perímetro portuário.

Do outro lado do Atlântico, “Long Beach” desenvolveu o conceito de “Porto Virtual” que consubstancia uma plataforma eletrónica para fornecer, em tempo real, indicadores de performance que permitem compreender e atuar com precisão sobre situações que impactem no uso ineficiente dos recursos energéticos. Neste caso, a gestão inteligente suportada por serviços de informação assentes no potencial da IoT permitiram um aumento significativo da rentabilidade e dos resultados operacionais, quer do porto, quer dos operadores de terminais com a redução em 50% dos consumos de eletricidade.

Num ou noutro continente observamos a tendência crescente da gestão suportada pelo processamento inteligente e em tempo real da informação. A introdução de ferramentas para a gestão inteligente dos recursos energéticos e a compreensão do impacto das atividades sobre o meio ambiente tem contribuído para diminuir a poluição e as emissões de dióxido de carbono (CO2) e melhorar a performance das diferentes perspetivas de desempenho portuário.

Os portos estão a passar por uma nova “Revolução Digital” impulsionada pelos desígnios da sustentabilidade.

Podemos dividir a atuação da revolução em marcha em três diferentes eixos: a energia, o ambiente e as operações logísticas. Não podemos esperar sucesso nas iniciativas de eficiência energética sem considerar a gestão inteligente de infraestruturas, tráfego e fluxos de carga. Na verdade, uma boa parte dos impactos ambientais e utilização ineficiente de recursos energéticos devem-se a congestionamentos e outras lacunas de fluidez que podem, hoje, encontrar resposta aos seus problemas na interconectividade entre objetos e pessoas.

A mudança dos padrões de desenvolvimento dos portos deve ser assumida como uma estratégia prioritária para que estes acompanhem as tendências dos serviços modernos. A construção de um verdadeiro “Porto Inteligente” levar-nos-á a um universo de colaboração dinâmica entre diferentes coisas, melhorando a eficiência, a precisão, a visualização, a segurança e a fluidez das operações portuárias.

Os novos serviços de base tecnológica baseados na IoT estão, já hoje, acessíveis aos vários players do mercado, permitindo que estes potenciem a criação de novos modelos de negócio dentro e fora do ecossistema portuário, interagindo com vários outros sectores de mercado.

Estamos a viver o momento em que Portugal acertou uma agenda com iniciativas concretas rumo à “Janela Única Logística” (JUL). Esta é uma oportunidade única para as comunidades portuárias e para o setor tecnológico português assumir, novamente, o controlo da vanguarda tecnológica portuária. Tal implicará que descolemos de uma visão focada no processo administrativo para darmos um espaço de oportunidade para que “todas as coisas” que intervêm nos portos e na cadeia de valor da logística comecem a “falar” umas com as outras, produzindo informação e conhecimento para assegurar o equilíbrio entre a eficiência da operação e a saúde do planeta.

A nova Revolução Digital dos portos e das cadeias de valor da logística já está em curso. Portugal tem de lhe tomar a dianteira.»

Sobre os Autores: Ana Cristina Ribeiro, Nelson Figueiredo de Pinho e Hugo Metelo Diogo são dirigentes da Compta, a mais antiga tecnológica portuguesa, recentemente reconhecida com o estatuto de idoneidade científica para a prática de investigação e desenvolvimento sob diferentes domínios científicos e tecnológicos. Esta equipa de especialistas, tem vindo a desenvolver conhecimento em setores como a Economia do Mar, a Logística Multimodal e as “Cidades Inteligentes”, nos quais, têm focado a sua intervenção no potencial da Internet das Coisas (IoT) aplicada a sistemas de monitorização ambiental e gestão inteligente de operações e recursos energético.

Fonte: Cargo Edições

 
 
 

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