Novo terminal de cruzeiros de Lisboa. Já podem chegar mais 300 mil turistas a Lisboa. E a prudência?

 

O novo terminal de cruzeiros de Lisboa foi (novamente) inaugurado, acrescentando 300 mil passageiros à capacidade anterior. Alguns acham que ainda não chega e outros pedem prudência.

Francisco soma 37 anos aos 30 que leva como gerente do quiosque “Jardim do Tabaco”, mesmo em frente ao novo terminal de cruzeiros de Lisboa. Em hora de ponta, mas após o barulho das câmaras e a pompa e circunstância das grandes inaugurações terem acalmado, vai tirando cafés e servindo os clientes que, como os cruzeiros que vê chegar todos os dias, ficam por pouco tempo no seu balcão.

“De início, quando os paquetes começaram a atracar aqui, as pessoas gastavam mais dinheiro“, relembra Francisco. “Inclusivamente, as pessoas quando vinham da Baixa vinham sempre cheias de sacos. Se vir agora, entram todas nos barcos de mãos a abanar”. De mãos a abanar não vão Erick e Viviana, dois turistas brasileiros que regressam ao seu paquete após a visita curta a Lisboa: “Comprámos pastéis de nata para levar, vamos para Southampton no Queen Victoria.”

Estes, tal como as centenas que vão passando por Santa Apolónia, veem ainda um terminal com o exterior em obras, mas cuja inauguração final — sendo que a ministra do Mar já tinha cortado a fita de forma não oficial antes das eleições autárquicas — chega já com uma estação de atraso. Era para ter sido no verão, foi no outono. A culpa terá sido das “condições climatéricas adversas”.

 

De sítio de passagem a cidade destino

Tal como Erick e Viviana, Michael e Susan vão embarcar no Queen Victoria, mas estes vão voltar ao seu país natal, a Inglaterra. Não sendo a primeira visita à capital portuguesa, notaram algo diferente quando chegaram. “Da primeira vez que viemos atracámos mais junto do mar“, afirma Michael, referindo-se ao terminal de Alcântara. Quando se apercebe que há um terminal novo, as primeiras palavras são “parece muito moderno”.

O edifício, que entre investimento público e privado concentra 77 milhões de euros, é constituído por 13.800 metros quadrados, três andares e um terraço panorâmico, bem ao estilo daquilo que se tem vindo a fazer em Lisboa. O projeto ficou a cargo do arquiteto José Luís Carrilho da Graça e é, segundo o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, “um extraordinário edifício que ainda nos permite ter um terminal de cruzeiro.”

Para Viviana, o edifício encaixa bem numa cidade que “parece muito segura e limpa”. O companheiro acrescenta ainda que ficou com pena de ter ficado tão pouco tempo, visto que gostaria de ter conhecido, não só Lisboa como o resto do país. “Estivemos por pouco tempo, mas gostávamos de seguir até Cascais e até de ir ao interior, que nós gostamos mais do mato”, afirma Erick ao ECO.

É ao encontro deste sentimento que vai uma das pretensões que Fernando Medina expressou no seu discurso na cerimónia de inauguração. “Ambicionamos que Lisboa seja não só um porto de acostagem, mas também um porto de estadia mais prolongada e um porto de partida”, garantiu o autarca socialista.

E se atualmente o terminal de cruzeiros de Santa Apolónia tem capacidade para receber 500 mil passageiros por ano, com esta nova construção passa a poder receber 800 mil. Ainda assim, não será em 2018 que o novo terminal atingirá o seu máximo potencial, com as previsões do Governo a apontarem para que, em 2018, cheguem 617 mil passageiros. Francisco e o seu negócio agradecem.

 

Turismo. Sim ou não?

Este terminal, que servirá agora como uma porta ainda mais aberta para quem visita Portugal através do Oceano Atlântico, é inaugurado na mesma semana em que de um lado da cidade se celebrou a troca de experiências entre culturas e do outro se deixaram avisos à dependência da economia de fatores voláteis. No Parque das Nações, milhares de estrangeiros marcaram presença naquela que é considerada a maior conferência de tecnologia e empreendedorismo do mundo, em que não só se celebraram as inovações e as disrupções como se fez o apogeu do ecossistema empresarial português. Em São Bento, a discussão do Orçamento do Estado de 2018 na especialidade levantou algumas bandeiras amarelas à forma como o atual Governo está a gerir as finanças públicas.

Teodora Cardoso foi uma das mãos a levantar essa bandeira, pedindo “grande prudência”. A presidente do Conselho de Finanças Públicas chamou à atenção para o facto de este Orçamento parecer muito dependente de uma conjuntura externa favorável, destacando como caso específico o turismo. “Temos uma vulnerabilidade para já que tem a ver com o grande aumento a que temos estado a assistir no turismo. É uma das componentes mais voláteis da procura externa”, referiu no Parlamento.

Em contrapartida, para o primeiro-ministro, não é bem assim. Com o setor do turismo a representar já 7% do produto interno bruto nacional e 18% do total das exportações, Costa afirmou na cerimónia de inauguração que o turismo “ainda tem muito para dar” tendo em conta o potencial que Portugal tem”. “Aqueles que dizem e procuram desvalorizar o peso do turismo estão profundamente enganados”, rematou o primeiro-ministro.

Por enquanto, não há mais turistas a entrar porque o terminal ainda não está completamente apto para a atracagem. E mesmo se demorar, Francisco já está feliz por terem reabilitado a margem do rio que contempla todos os dias. “Isto era necessário, com navios ou sem navios”, considera.

Fonte: Juliana Nogueira Santos / ECO

 
 
 

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