Diário de Bordo. A sardinha é o novo caviar: andámos 48 horas à pesca para saber porquê

 

No barco de Joaquim Zarro, nem tudo o que vem à rede é bom peixe. A sardinha é mandada fora e o carapau vende-se, com sorte, a cinco euros por cada 20 kg. Fomos ao mar da Nazaré.

A sardinha é o peixe da costa portuguesa mais valorizado do mercado: o rendimento gerado em lota pela venda da sardinha é quase o triplo da produzida pela venda da cavala, por exemplo, ou o dobro do que o dinheiro gerado pela venda do carapau aos compradores. Mas a mina de ouro que poderia ser a pesca da sardinha está longe de estar ao alcance dos pescadores: desde 2010 que a quota de pesca permitida para o novo caviar português tem baixado ano após ano. A quota deste ano — 14 mil toneladas — é cerca de quatro vezes mais baixa do que as toneladas permitidas há sete anos. E quebrá-la não compensa, garante Joaquim Zarro, mestre nazareno que nos recebeu no barco “Companheiro de Deus”: sempre que se cruza com um cardume de sardinha evita lançar as redes ao mar. As multas são tão grandes que arriscar é perder meses de trabalho. Joaquim Zarro simplesmente deixa a sardinha passar por debaixo do barco quando a quota fecha: “É como virar costas a ouro”, desabafa o pescador de 52 anos enquanto tenta encontrar carapau.

Desde 25 de outubro que os pescadores estão proibidos de apanhar sardinha, um peixe que conseguem vender a 88 euros por 22 kg (o peso de um cabaz) em dias bons. “Uma injustiça”, considera Joaquim Zarro: a sardinha só chega à Nazaré nesta altura do ano, quando as quotas já chegaram ao limite e é proibido apanhá-la. A alternativa do mestre do “Companheiro de Deus” é pescar carapau, um peixe que vende a apenas cinco euros por 22 kg — o preço por quilo a que vai ser vendido este mesmo peixe no dia seguinte nos supermercados Modelo. Uma coisa que “dói imenso”, considera o mestre: cada rede de Joaquim Zarro pode chegar a custar 30 mil euros. Precisaria de pescar 72 mil toneladas de carapau só para cobrir esse valor.

A partir de quarta-feira, os pescadores estão proibidos pelo Governo de capturar sardinha com artes de cerco porque a espécie vai entrar em período de reprodução. De acordo com o Regulamento do Regime de Apoio à Cessação Temporária das Atividades de Pesca com Recurso a Artes de Cerco, publicado em Diário da República, “a paragem das embarcações decorre pelo período de 30 dias seguidos, a cumprir entre a data de entrada em vigor do presente diploma [quarta-feira, dia seguinte à publicação] e 30 de abril de 2018″. O Observador esteve na Nazaré a bordo do “Companheiro de Deus” para saber como é a vida de quem depende do mar português — e das quotas do peixe impostas pelo Governo. Encontrámos sardinha, mas tivémos de a ignorar. E pescámos carapau com a alegria de quem tinha encontrado uma mina de ouro — que, nas contas do mestre Joaquim Zarro, está longe de o ser.

Segunda-feira, 09 horas e 32 minutos — O Primeiro Encontro

A julgar pelo som das gaivotas, que se ouvem a uma distância considerável do oceano, o dia já vai longo no porto de abrigo. O mestre Joaquim Zarro está por lá há meia hora a preparar o barco para regressar ao mar ao fim de algum tempo parado para ser limpo. Para o encontrar basta procurar uma máquina verde à direita, numa rampa que abre caminho para o mar. A máquina é verdadeiramente grande, mas vale-nos a capacidade vocal do mestre, que grita por nós do outro lado do cais, para o encontrar. O grito é tão imponente que até as gaivotas se calaram.

O barco de Joaquim Zarro chama-se “Companheiro de Deus” por motivos que só víriamos a compreender mais tarde — embora muitos dos barcos atracados junto aos armazéns dos pescadores sejam batizados com referências religiosas. Em redor do casco há uma grande faixa vermelha ornamentada com o símbolo do Benfica, um grande 36 estampado na ré e “tetra” escrito em letras capitais. É um universo benfiquista apenas interrompido pelo boné sportinguista de um dos pescadores. Joaquim Zarro sai do leme e estende-nos a mão. Tem os dedos pesados, a palma da mão áspera pelo roçar das cordas e a pele curtida pelo sol e pelo sal em que mexe todos os dias desde há 12 anos. É com ela que nos abre caminho para o barco, para onde entramos num salto entre o cais e a meia-ré. Os pescadores cumprimentam-nos, perguntam-nos como vamos e vão correndo de um lado para o outro para arrumar caixas, argolas e anzóis. Nenhum deles sabe ainda quem somos. Mas dizem-nos para estarmos à vontade: “É como se estivessem em casa”.

Ainda há muito para fazer até às duas da tarde, hora marcada no relógio de Joaquim Zarro para o regresso ao mar. O frenesim a bordo ganha ainda mais velocidade quando chega o momento de testar o motor: Joshua David Roberts, filho de Joaquim, desce até ao porão do “Companheiro de Deus” e faz rugir o aparelho, que anuncia estar pronto para arrastar o barco de regresso à Praia do Norte. Agora é preciso encher as tubagens com água, que tiveram de ser esvaziadas quando o barco ficou a seco. É um momento tenso e de ansiedade: a saúde da embarcação depende toda deste teste. Joshua e o pai trocam impressões sobre a resposta da maquinaria à água doce, mas não se compreende bem o que dizem: o sotaque nazareno é intrincado e ainda não nos habituámos a ele.

fonte: Observador

 
 
 

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